Hoje não escrevo sobre maternidade.

Hoje sou Carmo por inteiro aqui, não que o não seja das outras vezes, sou sempre.

Mas hoje venho de modo especial, venho de dentro para fora, do íntimo.

Tenho um par de phones nas orelhas, um computador à frente, um telemovel do meu lado esquerdo e um terço.

O teu terço.

O terço de quem já está no Céu.

Quiz te tornar presente hoje, que escrevo com transparência.

Sei que estás aqui, e sei, agora mais que nunca... Que olhas por nós. Que nos sentes, e nós, te sentimos. Que nos falas. Que nos tocas. Que comunicas connosco das maneiras mais giras, e brincalhonas como era próprio de ti.

Sabes, há dias que a saudade aperta.

Há dias que a vida tem um sabor mais amargo.

Há dias que somos mais cinzentos.

Há dias que não damos nem somos o melhor que há em nós.

Há dias.

Há dias em que não há sentido, mas tudo faz sentido.

Há outros, em que nada faz sentido.

A morte para mim é um mistério, que estranhamente até tem uma digestão aparentemente fácil, a curto prazo. A longo, talvez se trate de outro assunto, mas tudo ok.

Deus traçou assim, e desde cedo que o aceitei assim, tal como é... partir faz parte.

A saudade, isso são coisas nossas... São coisas com as quais nem sempre sabemos lidar. É isso que aperta, que corrói. Mas é também isso, que nos mostra como somos tão capazes de amar.

Somo capazes de fazer crescer dentro de nós coisas bonitas.

Somos capazes de abrir cá dentro o que é difícil.

Somos capazes!

Esta saudade mostra o bonito que conseguimos ser.

Restam as memórias.

O que vivemos, o que sentimos juntos. O que aprendemos.

Resta o que se fez História. A nossa história...

E história fez-se cheia de páginas, vividas, rasgadas, deixadas abertas e outras vezes bem fechadas.

Fez-se de encontros e desencontros.

Risos e choros, abraços bem apertados. Esses, já ninguém nos tira.

Ninguém meu querido.

Aqueles minutos longos de olhar... De quem não tinha medo de olhar bem lá para dentro.

De quem era inteiro e teimoso.

De quem deu tudo e tudo aos seus. De quem não teve medo de sofrer.

De quem não teve medo de dar.

No dia em que partiste, pedi-te desculpa. Pedi-te desculpa pelas coisas que te devia ter dito e não disse, pelas verdades que me competiam dizer e não disse.

Pedi-te desculpa pelas vezes que também te magoei e lembrei-te das que fui magoada.

Pedi-te desculpa, e perguntei-te se eu também era assim importante para ti?

Hoje sei que sim.

Hoje sei, que não faz mal nenhum fazer o luto ao longo dos meses que vão passando, e que não tem mal nenhum chorar esta saudade.

Esta saudade que te torna vivo no meio de nós.

Agora vives, e és um sortudo, porque já te foi revelado o Seu rosto.

Sortudo! Já estás do outro lado da margem!

Mas então nesse caso, ajuda-nos a construir o nosso pontão como deve de ser, para assim, chegarmos só um pouco mais perto e mais longe.

Olha por nós querido e eterno amigo, até ao dia que aí chegarmos, vem também com Maria buscar-nos, pode ser?

Eu espero por ti no sítio do costume.

Serás sempre lembrado no meio de nós.

Um beijinho longo, e um abraço bem apertado, de olhar intenso.


Carminho